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Noite em mim

Bate-me a vida no coração distante.

Tão alheio aos dias que, se não me acordo de vagos pensamentos, permaneço vivendo neles mesmo.

E que entrego, tudo de mim

Dia após dia

Como numa faísca de esperança que me resta de mim.

 

E que essa minha escuridão vire dia

Pois já não me recordava

Dessa atração pelo escuro.

 

E que você

Dos meus dias claros

Abra sempre as janelas, mesmo quando eu te sussurro um grunhido negativo por isso.

 

Pois assim me recupero

Pouco por quase nada

Pois há tempestade em mim

E a madrugada não tem fim.

O mundo não acabou. Pelo menos pra mim.

Estagnei um ano inteiro esperando que meus feitos dessem em algo. Um ano que fez um passado pesado e melancólico voltar sem bater nas portas. O ano em que oficialmente aqueles que eu despejava confiança se afastaram cada vez mais. E eu me importando cada vez menos.

Reaprendi a lidar sozinha como sempre fiz. Lutei, mudei, engoi choro, ajudei e briguei com tantos sem jamais desistir do que eu acredito. Porém, me permiti a experimentar tantas outras distrações que certamente estão remoldando essa Barbara que está cansada de sempre pensar tanto. 2012, tanto trabalho mental e pouco físico. Tanta mudança que eu já nem sei mais. Cheguei no auge do meu cliché e conformismo, mas não comodismo.

Continuei me revoltando. Convivi com mais gente fútil do que achei que seria possível e é mais triste ainda saber que nem meus mestres mais experientes gostam de lidar com meu lado lógico de trabalhar. Ouvi gente que fala demais e não faz nada, fico diariamente me frustrando com publicações virtuais onde 500 pessoas moldam uma vida que gostariam de ter e frases que gostariam de se encaixar, mas agem de uma forma oposta frustrante pra elas mesmas.

2012. Tudo repetitivo. Parece que eu voltei a ter 15 anos e voltei a desprezar o que me cerca, e que não me interessa mais rever textos, filtrar palavras, pensar no que falo pois não importa quantos anos eu viverei: é preciso não parar de seguir em frente.

E depois de reaprender a lutar sozinha na época em que eu estava mais receptiva a ser feliz, depois de perder toda força física e mental e uma desmotivação devastadora tomar conta da minha bolha diária, eu olhei bem do meu lado e percebi os presentes mais lindos que poderiam me compensar.

2012. Você foi um ano diferente, mas igual. Você, que tanto pisou em mim de novo  e me fez relembrar passados assombrosos, você que terminou de moldar os meus nervos de aço, parece que me deu todo esse treinamento pra depois me encher de mimos.

Você, que virou as cartas da mesa e se fez um dos anos mais queridos, me deu meu maior companheiro, me mostrou que a família pode formar uma força inacreditável e uma união de dar inveja, e abriu mais ainda meus olhos pra pessoas que considero os presentes mais lindos que eu poderia ter do meu lado.
E que agora que você acabou, eu agradeço por me remoldar. Pois nada agora me ablará facilmente, e você me mostrou a melhor companhia que aquece minha mente e o coração, e aquieta meus surtos diários.

E que agora é nascer de novo. Tenho as pessoas mais inspiradoras bem do meu lado, e quero continuar aprendendo, e me fazer sempre melhor.

Que fique de lado os desnecessários, os indiferentes, os que falam muito, os fúteis e os que me cansam. Pois 2012 terminou de moldar o muro de aço que impede vocês de chegarem perto. Porque o mundo não acabou pra mim.

Escrevi você.

Fico me perguntando, quase que constantemente, de onde vem tamanha leveza que te habita. Te analiso, como quem estuda um objeto recém descoberto, e tamanho mistério não consigo resolver.

E eu que vim de estradas tortas, desajeitadas, de um mundo nada delicado. Eu que passo os dias regados a blues. Eu que já havia decretado minhas barbaridades. Eu que não sei falar sem transparecer um pouquinho de brutalidade. Eu que fico indignada, que falo palavrão, que não uso maquiagem. Eu que rego minhas horas com melodias pesadas, entrei no embalo do seu samba.

E que por dias desejo quase que desesperadamente o teu caso solucionado. E sigo o embalo dessa tua valsa que tem melodias leves, que me contagia e invade todo o meu rock. Observo seu menu e encontro calmaria com um gingado de sonhos que deslizam sempre por sua cabeça e abuso do carinho que eu vejo quase como um dom. E cada vez mais percebo que quero continuar me entrelaçando nessa sua calmaria.

E que pra mim é uma honra como você, branco, clareou o meu preto. E que assim seja. Eis aqui a entrega do meu gelo que só você soube derreter. Quero grudar no seu contorno como duas unidades que foram moldadas para perfeito encaixe. Pois com você assim, meu bem, minha bohemia virou dia.

Quietude

Me acostumei a esses dias regados a um caos que funciona, com correia e decisões precipitadas – que resultaram em semanas marcantes e lindas da minha vida – onde moldei meus dias sem muito pensar e sempre que possível saindo da minha zona de conforto silênciosa.
E nessas noites em que me joguei noutras bohemias, entreguei meu lado elétrico e deixei o reservado de lado, onde juntei o urbano com mar, amigos com família, mesclei o impossível com o inimaginável, até que algo me trouxe de volta.
 
Barulho na sala, conversas bêbadas ao nosso redor, cachaça no chão. Ruídos urbanos, risadas altas e fogos de artíficio no meio da madrugada. E mesmo em dias como esses, me peguei deitada nos seus braços e encontrei a paz mais serena de todas.
Caos, poluição sonora, uma cidade nova e ainda assim me encontrei novamente. E no conforto de seus braços, onde me senti de volta pra mim, foi quase possível ver todos os ruídos sumindo do nosso redor dançando feito fumaça, e a luz matinal atravessando a cortina até o mundo ficar em silêncio. E ficou.
 
Uma entrega lenta e silenciosamente, narrada num texto sem desfecho certo, pois é assim que tem que ser. Larguei os parênteses e o ponto final, como deveria ter feito a muito tempo.

Bagagem

As longas obras que moldei chegaram de muitos lugares, atingiram longas distâncias e voltaram pra perto, me rodeando mais do que o permitido por dia. (chega a ser divertido como apostam desfecho para a vida dos outros).

A intensidade de tudo isso incomoda e as palavras rasgadas e abertas talvez machuquem aqueles que não têm coragem delas. E repentinamente (mas não inesperadamente) dá pra notar como é difícil querer conquistar uma vida genuína, que é o mínimo pelo qual você luta pra tirar tanta bagagem dos ombros.  É preciso ser cego, surdo e mudo, engolir seco e se conformar o tempo todo – uma batalha de todas as pessoas do mundo – só pra tentar viver da maneira que você bem merece. Não sou tão antiquada assim, mas aparentemente falta algum encaixe que todos moldam o tempo todo de uma nova era. E não há mais pessoas preenchidas de amor, procurando em pequenos gestos e atos o seu próprio e merecido valor. Não há mais reconhecimento de fraquezas e pecados sem que alguém sobreponha com uma camada de orgulho. Falta calculo de delitos, que é normal sim cometê-los, pois se erra muito na busca de, pelo menos, um cotidiano feliz onde nos percamos de amor por nós mesmos. E fica mais difícil ainda quando nos perdemos no meio da trilha.

Manterei olhos, boca e ouvidos ainda fechados sempre que necessário. Mas pelo menos, humana que sou, um dia já fui ou serei capaz de espalhar ao vento sementes que eu mesma germinei sem ajuda de ninguém numa era onde o amor próprio se perdeu.

Prelúdio

Anoitece, São Paulo
No céu e no boteco.
Me levando embora umas gramas por dia

Fazer o quê
Lua cheia,
vida minguante.

Obsoleto

E agora seria uma humilhação para mim continuar aos poucos me desfazendo dos meus nãos. E eu jamais permitirei que minhas defesas desapareçam como poeira nas mãos. Não por moralismo, mas porque há coisas que são mais do que eu mesma. Seja qual for a substância da minha alma, a minha e a desse modernismo todo não são feitas da mesma. Ela é tão diferente quanto o luar é do relâmpago, ou a geada do fogo.

Difícil dormir em paz sabendo que amanhã tem mais.